Custom Search

domingo, 17 de junho de 2012

Evolução da Geografia Portuguesa


Na alta idade média a grande autoridade passa a ser o compilador Juliano Solino. Não se observa, não se concretiza. Não se descreve a realidade envolvente que se não percepciona. No mundo dos homens, produto da vontade do criador, vive-se sem se procurar explicações para fenómenos que são apenas considerados dados de facto. Natureza e homem foram criados, verdade que não se investiga, e articulam-se em regras imutáveis. O que se sabia do Mundo grande e elementar, vinha compendiado em Osório e Isidoro. O homem e o que o rodeia são percepcionados em bloco no mesmo quadro. O homem corporal é o microcosmos, feito pelos mesmos quatro elementos  que o mundo físico. Composto por: terra a carne, de água o sangue, de ar a respiração, de fogo o calor. Não há distanciação que permita observar e descrever e muito menos alcançar a compreensão e explicação da natureza.
Contudo, a Sul da península, no séc. X vamos encontrar viva a atitude helenística de observação da terra e do meio natural.
Na área cultural islâmica nasce e desenvolve-se a geografia descritiva globalizante que não é propriamente tributaria de nenhuma disciplina especializada, sendo portanto de todas. A geografia descritiva totalizante é em simultâneo geografia: política, administrativa, social, etnográfica, linguística, religiosa, agrícola, industrial e comercial. Instrumento atuante na cultura, na administração e na política, que não apenas género literário ou disciplina intelectual.
No séc. XII com El Idrisi conjugam-se a cartografia e a descrição geográfica. Encarregado de elaborar um mapa-mundi, informa-se e procurar situar as terras e os mares. Como o seu trabalho se destinava à construção de um mapa já não se encontrava integrado na concepção da cultura Islâmica com a mesma frescura.
Mas se a narração do exótico se vai desenvolver a partir do séc. XII, lentamente, embora, nos séculos seguintes outros tipos de registos se vão apurar: os roteiros marítimos descrevendo as costas e os portos, as cartas de marear, que são complementares e os registos de mercadores, que precisam de saber as particularidades das praças comerciais.
Apesar e por causa da profunda crise estrutural  no séc. XIV nas economias europeias,  novas saídas comerciais se procuram, pelos mares. Resultado da intensificação da navegação comercial, as cartas de marear começam a aperfeiçoar-se e o traçado das costas já não é mítico mas fruto de observação. Novos instrumentos permitem igualmente a melhoria da representação gráfica: a utilização da bússola, o regimento das horas da noite, o uso de relógios de areia.Tudo se vai registando na cartografia que acompanhou os progressos dos conhecimentos geográficos que as relações religiosas, a diplomática e o comércio proporcionavam desde começos do séc. XIV. Uma nova literatura mistura o real e o imaginário, o observado e as borras de uma cultura velha de séculos, sem critério de destrinça entre verosímil e inverosímil.
De algum modo ligado à mesma ansia de conhecer o mundo que suscita a literatura de viagens surgirá, no séc. XV, um género ainda mal estudado: os livros de arautos, dos quais constam descrições de terras, informações heráldicas, nada de invenção. O maravilhoso desaparece desta literatura que parece ser a primeira manifestação de aquilatar da qualidade dos senhores pela prosperidade dos domínios respetivos. No caso do anónimo português a sua atenção centra-se  nas riquezas naturais e nos rendimentos eclesiásticos, a que não se deve estranhar dadas as funções do arautos: conhecer, reconhecer e honrar os senhores. Não se avança além da simples enumeração.
Na literatura portuguesa de viagens ultramarinas a descrição surge, mas mesmo  assim está averiguado que se trata antes de mais de uma necessidade de reconhecimento dos locais. A natureza quando se manifesta na literatura vai ainda trazer a marca dos livros e isso bem entrado no renascimento.
A literatura medieval  mesmo quando os homens do mar já conheciam bem as costas não reflete ainda a nova realidade. Mesmo a cultura profana está dominada pelo enquadramento final da escolástica decadente. Da literatura medieval ficará a semente da descrição no louvor das crónicas gerais. Manifestação da presença do meio natural para explicar pelas riquezas obtidas  ou não os feitos militares.

Contributo do Humanismo

Para os meios mercantis  em recuperação e forte crescimento  em meados do séc. XV o confinamento eclesiástico da sabedoria, tudo subordinado ao conhecimento teológico, não corresponde mais a um mundo em mudança. A busca de padrões  de cultura diferente vai levar à viagem  decisiva para a antiguidade como modelo. Em movimento sinuoso, contraditório, a recuperação dos escritos clássicos leva a descobrir a natureza, uma atitude de imitação dos antigos, que tinham observado e descrito. Para os humanistas que vão laicizando a cultura, as contradições raramente se resolvem, e enfiam-se em becos sem saída. Acontece que os humanistas, que promovem uma abertura  cultural fervilhante de novidade, se enredam e bloqueiam no respeito pelos clássicos. E acabam por servir os meios culturais que abalaram e não a sociedade mercantil em que se inserem e de que são produto.
Os humanistas inicialmente italianos ou de  formação italiana  estão apegados aos autores da antiguidade, um deles será Lúcio Marineo, de formação romana que instalado professor em Salamanca, e depois capelão régio, que introduzirá  a geografia descritiva na península. Lúcio Marineo  quer descrever não só o que a natureza produz, as ações memoráveis dos reis, os varões ilustres, santos e mártires, como as cidades e fortalezas, tudo o que deve ser lembrado das coisas de Hispânia. Não é assim idêntico ao velho louvor na medida em que  agora há concretização e exemplificação com algum pormenor ainda que não faltem os disparates dos humanistas.
Homem de negócios, Damião de Góis, recusa o ingrediente comum das autoridades clássicas, porque os antigos observaram o que se passava na antiguidade e nós  temos de observar o que se passa no nosso tempo. Góis permanece sempre o português ligado aos  meios mercantis da expansão. Damião de Góis ignora tudo do aspecto da terra, forma e situação, está preocupado com o  vulto que a península ganha  pelos seus feitos atuais, pelos grandes tratos internacionais, principalmente asiáticos, em cujo centro se situa. Visão moderna aberta à novidade dos impérios atlânticos e às imensidades da longínqua Ásia é a que expressa Damião de Góis, cosmopolita imperfeitamente colado ao humanismo europeu corrente.
Para a esfomeada curiosidade renascentista era necessário saber-se tudo, quer Marineo, quer Góis quer Nânio se preocupam com a riqueza de fidalgos e bispos, coma  vida dos barões contemporâneos. Marineo viu-se censurado, Góis temeu-se de dizer a riqueza dos fidalgos e remeteu para o anterior já Nânio refere a  necessidade desse conhecimento.
Esta preocupação com  a riqueza e poderio dos nobres, a necessidade de se saber quais as força para a guerra ou para a paz, não estão apenas na cabeça, por vezes desarrumada, dos  humanistas. É um fenómeno do período de construção dos Estados nacionais e da supremacia do Soberano.
A geografia de uma terra em alargamento  no espaço, com novas de terras até então ignoradas, choca com os quadros mentais de uma sociedade em conflito cultural, em que o legado da Idade Média está a ser posto em causa pela redescoberta da Antiguidade. E nesse conflito e consomem os humanistas, quantas vezes preterindo o novo, ou redescoberto, em favor de uma filológica interpretação do Antigo. Acresce ainda a premência dos conflitos religioso, que o renascimento acelera, e compreende-se a pouca atenção que merecerão, até muito tarde, o Novo Mundo e a África.
Os humanistas preferem muitas vezes as antigualhas que desenterram à observação direta. A própria imprensa  que seria muito legitimo pensar-se daria noticia dos achamentos e descobertas vai sobretudo editar os clássicos gregos e latinos. Assiste-se à contraditória situação de um instrumento de progresso funcionar como poderoso freio.
A atitude dos humanistas também se sente na península mas aqui a vivência das descobertas teria de modificar a mentalidade colectiva, não que se ignorem os clássicos ou se menospreze o saber transmitido pelos medievais, mas um novo elemento, o conhecimento  direto da terra em alargamento em novas terras, o saber de nautas e mercadores opõe-se em simultâneo à tradição medieval e ao restauro dos antigos. Estas três atitudes não parecem compatibilizar-se e a explicação deve residir na separação que se faz entre geografia/cosmografia e geografia corografia. Esta separação tem raízes teóricas numa das obras fundamentais da antiguidade, largamente difundida pela imprensa. Na obra de Ptolomeu apresenta-se  logo a abrir a diferença entre geografia e Corografia.
A Geografia descritiva fica assim, por obra de matemáticos e cosmógrafos, para o papel de pintura e de pormenores sem as honras da matemática. Os campos extremam-se. A Corografia vai assim surgir pela mão de funcionários para precisar elementos administrativos e junto da história para explicar as ambições e de riqueza dos heróis.
O contributo dos humanistas para o aparecimento de uma geografia descritiva  parece à primeira vista não ter sido grande. Não o foi pela certa, intencionalmente, por não se enquadrar nas suas preocupações. Na realidade foi decisivo. Com os humanistas inicia-se a observação do concreto, a preocupação em distinguir as regiões da península, o registo das riquezas e dos seus possuidores. Com eles também a geografia descritiva será relegada para o campo literário e empurrada para junto da crónica, frustrando-se a ligação com a cosmografia.

As necessidades do Estado e dos grupos dominantes

Mostrar, elogiar e enaltecer e enaltecer as pátrias são sempre os propósitos declarados por quantos registam as maravilhas e curiosidades de suas terras, na linha das intenções entrevista nos livros de arautos.
A primeira obra deste género que se conhece data de 1512 do Mestre António “tratado  sobre a província d’Amtre Douro e Minho e suas avondanças”. Este mestre António mal sonhava a divulgação que as suas informações iriam ter.
A mesma preocupação de enaltecimento da sua pátria leva João de Barros a compor a “Geographia d’antre Douro e Minho e Trás os Montes” em 1548, despejando catadupas de erudição enumera cuidadosamente igrejas, mosteiros, terras e terrinhas, produções, pontes, curiosidades e anomalias insistindo no ponto, porque viu.
A enumeração de riquezas, fertilidade, produções de uma região ou terra não deve ser tomada como simples encómio. A preocupação pelo numero, que vai levar séculos a atingir as adequadas técnicas de tratamento, já está bem evidente.
Mistura de informações topográficas, elogio e enaltecimento do comércio português, surge em 1554 a “Urbis Olisiponis Descriptio” de Damião de Góis. Ao contrário da Hispania, em que recusara a erudição, a Lisboa de Góis aparece escorada pelos antigos. Sendo sua intenção, descrever  a situação e estado atual da cidade de Lisboa, lança-se em longos excursos  por romanos e mouros. Mas o mais lhe toca: conquista e, principalmente, feitos  de expansão ultramarina. Ao gosto dos humanistas estriba-se nos antigos para obter passaporte para a europa culta.
Preocupado coma  credibilidade do que relata se apresenta o agostinho frei João de S.José, a sua Corografia do Reino do Algarve dividida em quatro livros, datada de 1577 é  seguramente o melhor exemplo do género histórico-corográfico renascentista em Portugal. Escritor escorreito e com algum mérito, frei João de S. José,  o que sabe pelos livros não abafa o que observa, se não dispõe de muitos informes numéricos sabe ver e relacionar com perspicácia, dando-nos a chave  para o entendimento do Algarve quinhentista. Erudito não aceita sem crítica o que dizem os antigos. Com frei João de S. José o género corográfico atinge o seu ponto culminante. O estilo pretensioso de uma literatura tida como menor, a necessidade aristocrática de mostrar antepassados gloriosos afectando também cidades e vilas, a tacanha religiosidade, concorrem para que as corografias se cristalizem, desapareça a originalidade e o sangue novo das observações diretas.
O que era inevitável, pois as corografias deixam de ser literárias para entrarem no campo da administração pública.
O Estado no seu esforço centralizador tem de ter conhecimento do espaço nacional e regional, saber o que se passa e onde. Se já dispõe de alguns meios de ação, nomeadamente judicial e militar,  não dispõe de informação eficaz. Sabendo-se pode-se tributar melhor e tudo passa a girar à volta das crescentes necessidades do fisco.  A punção tributária, indispensável para garantir à coroa os réditos de que precisa para manter os seus domínios em guerra ou em paz, impõe o aperfeiçoamento da máquina estatal. O que não pode fazer-se sem um conhecimento pormenorizado do espaço nacional e do que nele se contém. É imprescindível conhecer o reino e o que nele há.
Neste contexto político as descrições apresentam três níveis de significação:

1 – conhecimento pormenorizado do próprio território que define o Estado
2 – conhecimento das terras com que de imediato a política estatal se relaciona, nomeadamente as colónias
3 – conhecimento de caracteres, riquezas e forças dos Estados com os quais se relaciona

A primeira será aquela à qual nos vamos dedicar alguma atenção. Desta nova realidade, conexão da política com as descrições, tinham já tido os humanistas consciência. A preocupação militar irá sempre em crescendo e a necessidade de informação acompanhá-la-á. Necessidade do Estado de conhecer o território, obra as mais das vezes de funcionários e não de escritores, a tarefa de pintura que à corografia estava reservada pela definição ptolomaica raras vezes acontece.

A frustração: A Geografia de João de Barros

Está-se na viragem de meados do séc. XVI, viragem que é estrutural. O império português enfrenta dificuldades que não são meramente conjunturais. A crise financeira impele Portugal para a órbita da prata castelhana. A burguesia inicia o seu caminho para a aristocracia. Culturalmente o breve fogacho de europeização que o Colégio das Artes representará vai desaparecer com a perseguição inquisitorial. Em 1555 a Companhia de Jesus substitui os pestíferos críticos da escolástica. O seu método todavia vai ser o dos humanistas. E aos Jesuítas se deve a fixação do humanismo nos estudos.  Porém esse humanismo perde a sua exuberância cristalizando-se. Na altura representa um progresso que ao enquistar-se, conjugado com o formalismo católico de uma contra-reforma que em Portugal não teve expressão original e superior ao nível da espiritualidade, arreda o que é novo. Mas isso será obra do séc. XVII.
Na segunda metade do séc. XVI estão vivas e fervilhantes as novidades das descobertas de além-mar. A literatura portuguesa está a gerar os seus expoentes. Sabe-se que João de Barros programou uma ambiciosa obra, uma geografia, que seria em simultâneo uma cosmografia e corografia. Evidentemente que tem raízes na constatação dos navegadores da insuficiência das obras antigas. Não é aos meios aristocráticos ou ao clero que tal obra pode interessar mas sim aos meios mercantis e em especial ao rei, que é o maior dos mercadores do reino. João de Barros vai coligindo informações, na qual se integra a obra de Gaspar Barreiros um outro João de Barros, o Doutor, na Geografia d’antre Douro e Minho e Trás os Montes regista as coisas que considera memoráveis nessa região do reino para que “se pudesse ajuntar a mais cosmografia quando fosse o caso que alguém mais particularmente quisesse investigar”. Que a ideia andava no ar, andava. Tinha mesmo tido rudimentar concretização, a nível geral da europa, sem minudências corográficas na Geografia que Munster apensara à sua tradução de Ptolomeu. Geografia, como escreve, em sentido comum, para distinguir da cosmografia. Descrição de terras, mares, montanhas, rios com as suas histórias e coisas memoráveis. Procura definições, como ilha, golfo, península, porto, istmo, lago, cidade, fortaleza, promontório.
A obra de Munster marca um ponto extremamente importante na literatura geográfica, rompendo parcialmente com os esquemas humanísticos. Em 1541 Ocampo publica a obra Crónica Geral de Afonso X. Com  obra de Ocampo a ruptura com os humanistas parece estar a consumar-se, o autor aproxima-se dos práticos da navegação. Isto por uma altura em que os humanistas também se dedicam à geografia descritiva, não como disciplina autónoma, mas como ancilar ao comentário de textos clássicos. O que revela tratar-se apenas de resolver problemas de método e não necessidades de  interpretação do mundo. Em 1560 temos também ligado ao Estado e meios mercantis uma novidade, publica-se em Veneza a carta corográfica de Portugal da autoria de Fernando Álvares Seco. Trata-se de um trabalho muitíssimo avançado para a época, podendo afirmar-se que é o primeiro deste tipo que se conhece. Neste mapa destaca-se já a linha de costa e a rede hidrográfica, na qual se marcam pontes, itinerários e  pensando nestes temos as questões militares. O mapa de Fernando  Álvares seco teve um enorme êxito, sobretudo por passar a vir em todas as coleções de mapas.
A geografia de João de Barros coroaria  o processo de criação da disciplina geográfica dando-lhe o remate monumental e científico que marcaria em Portugal, a substituição dos medievais e dos humanistas. A sociedade burguesa e mercantil  nela teria a sua expressão mas João de Barros morre em 1570 deixando o borrão da obra.

As descrições e a identidade nacional

Uma das vias que se abrem à geografia  é a da marcação da identidade nacional. Os portugueses já tinham da sua terra uma imagem global: o mapa de Álvaro Seco no entanto faltava a correspondente descrição literária, a qual surge junto de uma crónica a intragável primeira parte da Monarquia Lusitana, como tentativa de apresentação autonomizada da Hispânia, da geografia da moderna Lusitânia. Será paradoxalmente a Geografia antiga da Lusitânia, saída em Alcobaça em 1597, que revela um frei Bernardo de Brito. Lá vêm os autores antigos e junto com essa ornamentação  a descrição dos montes dos rios das gentes. As informações que dá são preciosas. A frei Bernardo de Brito cabe assim o lugar de estreante nas descrições portuguesas. Pela primeira vez se esboça o todo nacional numa visão simultaneamente erudita e decorrente da observação direta. A pretensão autonomista apresentada sem finura na Monarquia Lusitana  espelha-se igualmente nesta geografia a Lusitânia. A demarcação da Lusitânia do todo hispânico será doravante um dado adquirido. Não mais as visões conjuntas de fundo humanístico, ou mesmo medieval, perturbara a presença desta unidade portuguesa que a cartografia aliás precedera pelos menos 40 anos.
Portugal dispunha desde 1560 de uma imagem da sua forma: o mapa de Álvaro Seco que as grandes compilações de Ortelius, Gerard de Jode, e o Atlas Mercator difundiam através das suas inúmeras edições, contudo, não dispunha da correspondente identificação nacional geográfica de expressão literária, que a autonomiza-se no espaço hispânico. Vai consegui-lo com pleno êxito o autor de uma Origem da Língua Portuguesa e de uma Crónica dos reis de Portugal. Espaço, história, língua. Os três elementos fundamentais dessa busca  de imagem coletiva de Portugal. Precisamente no período filipino. O que Duarte Nunes do Leão fez, e bem, foi assinalar indelevelmente Portugal como Portugal. Muito especialmente na Descripção pois recolhendo os contributos preexistentes  soube apresentar a imagem possível  no séc. XVI que terminava. Muito menos devota, mas não acrescentando novidades a Duarte Nunes do Leão surge a descrição geral  a incluída no Epitome de Manoel de faria e Sousa, ainda que não acrescentando nada de novo apresenta um Portugal verosímil.  Esta “tonteria” patrioteira  em que o elogio geográfico é assinalável  fecha o caminho iniciado por frei Bernardo de Brito.

Uma geografia para a sociedade do barroco

Depois de Descripção do Reino de Portugal entra em declínio  a descrição regional. Parecia que a imagem parcelar deixara de ter o mesmo interesse. Humanistas ou escritores já do barroco com formação erudita, funcionários encarregados do levantamento do que interessa a quem tem de receber rendas, vão-se aproximando no tipo de escrita.  Da seca enumeração de um João Brandão aos cuidados com os autores antigos com frei Nicolau de Oliveira os caminhos convergem. À medida que se avança na sensibilidade barroca a erudição não diminui, mantendo-se a informação. Sinal dos tempos. Extensão da cultura humanista a todo o ensino como resultado do estabelecimento dos jesuítas poe todo o Portugal e adoção generalizada do seu modelo escolar, conjugada com as crescente necessidades da administração pública. As preocupações  governamentais com a defesa nesta primeira metade do séc. XVII, vão intensificar-se. E as descrições, instrumentos da administração e quadro de referencia, são indispensáveis. Impõe-se a medição há que procurar o rigor. Tão importante como os dados apresentados é o facto de se reproduzirem com preocupação da exata medida, as plantas das fortalezas. População, riqueza, rendas, gente de guerra, comandos e efetivos militares, armas, munições e fortalezas nas suas precisas dimensões. Medir, Contar. Está-se perante o programa do estado renascentista já cristalizado.
Começando por uma viragem dos humanistas para a natureza envolvente do homem, homem que se destaca do meio – inicialmente com atitude literária – as descrições assumem no Estado barroco que do renascimento resultará, o significado de instrumento de governo. A burocratização do Estado pressupunha saber o onde dos acontecimentos. As descrições permitem situar.  Pode até ser que uma descrição sirva a um representante régio para ter um conhecimento prévio  da terra que vai governar.

Conclusão

A trajetória iniciada nas crónicas e relatos medievais, acrescidas das descrições de viagens propulsionadas pela “fome” de conhecer outros espaços vem a traduzir-se num fracasso.
Portugal não terá a sua descrição por incapacidade de construção do real. Carência das formas de sensibilidade que  se ficam por uma percepção rudimentar. Não se cria a distanciação entre o humano e o natural. Tímidos esboços, mornas  imprecisões de homens ainda insuficientemente separados do meio,  que o não interpretam nem interrogam como objeto do conhecimento.
A conjugação do humanismo, das viagens além-mar – alargamento no  tempo e nos espaço – e a necessidade da medida e da quantificação permitem caminhar  no sentido de um apuramento da percepção  num diferente universo espacial. A descrição não foi tão longe em Portugal porque  não existiu capacidade de rompimento com o universo mítico e maravilhoso da mentalidade dominante. Em Portugal ficou-se pela descrição possível, já fora do tempo: a de Duarte Nuno do Leão. A pressão cultural da igreja triunfante (inquisição) e a cristalização social do barroco bloqueiam o caminho já aberto.

Sem comentários:

Enviar um comentário